‘Nada de Novo’: o cangaço partido em mil vozes

Romance de Sadraque Régis reinventa o sertão com experimentalismo, humor, violência e uma heroína inesquecível

E se, à sombra do bando de Lampião, caminhasse um grupo de negros pobres e desarmados, usando a fama do cangaço para sobreviver de pequenos furtos? Essa é apenas uma das muitas fagulhas que incendeiam Nada de Novo (M.inimalismos, 2026), romance de estreia de Sadraque Régis. Um livro que parece conter dentro de si dez romances, tratados filosóficos, cordel, tragédia grega e uma sessão de psicanálise.

O cenário é o sertão dos anos 1920/30, mas a cartografia aqui é outra. Régis não está interessado em repetir o mito de Lampião como herói ou vilão. O que ele faz é despedaçar o cangaço em mil vozes: humanas, animais, vegetais, microscópicas, cósmicas. É como se o cangaço fosse contado não pelos humanos “importantes” — heróis, bandidos, coronéis, jornalistas —, mas pelos marginais absolutos: os de baixo, os de dentro, os não-humanos, os microscópicos.

Narram a relva, o carcará, as bactérias de um corpo em decomposição, um cavalo, uma galinha, três cachorras, uma minhoca, um bode, o Sol (em crise de disforia de gênero) e, no epílogo, o próprio pó em que todos viraram. Cada narrador traz uma lente que desfaz o mito épico e o recompõe em fragmentos absurdos, poéticos, grotescos, cômicos ou niilistas.

No centro dessa polifonia brutal, ergue-se uma personagem que já nasce gigante: Maria Amazona. Marcada com um “L” a ferro e fogo no rosto pelo bando, sobrevivente do massacre, ela é a voz que costura a trama e que se recusa terminantemente a aprender algo com a própria dor.

“Com a dor desgraçada daquela queimadura eu não aprendi nada. Me recuso a aprender com uma coisa ruim dessas (…) berrei dia e noite como uma bezerra ruim, até quando a dor aliviava, que dor aliviada ainda é dor, vá pro diabo, e não deixei o desgraçado de sono leve do Lampião dormir por dias que sou a favor de que o castigo dos homens seja nocivo aos homens, e por isso eu o ferrei depois com aquele espinho no olho”, dispara, num dos muitos momentos em que a literatura brasileira parece ganhar uma nova camada de pele.

Maria não é uma heroína trágica. Não busca a morte do algoz numa explosão de vingança. Prefere “vinganças pequenas e continuadas”. Ela carrega uma cosmovisão: lê as Escrituras como quem desconfia de teólogos, cita Freud para desmontá-lo e pavimenta o próprio desejo num território historicamente hostil ao prazer feminino.

Mas há outras vozes que rivalizam com a dela em potência. Uma das mais perturbadoras é a de Candeeiro, jovem cangaceiro. Abusador, apesar do discurso que beira um feminismo primitivo, ele nega a existência do mal enquanto pratica sua violência. Há um contraste entre sua brutalidade e sua sensibilidade, seus atos hediondos e a beleza de sua prosa.

Suas descrições do sertão são frequentemente poéticas e visualmente impactantes, mesmo quando retratam um ambiente árido e hostil. Ele transforma a caatinga em algo vivo, quase mítico, com uma linguagem sensorial rica, cheia de cores, texturas, luzes e movimentos que evocam tanto beleza quanto sofrimento. É como se a terra que moldou sua brutalidade ganhasse voz através dele.

A estrutura do livro é tão experimental quanto suas vozes. Os capítulos se dividem entre “Vida” e “Opiniões”, numa construção que homenageia Sterne, sendo que as opiniões não pertencem aos cangaceiros mortos, mas às duas Marias — Amazona e Bonita. Há capítulos narrados por Leviatã, um ex-escravo que adota o nome do monstro bíblico e do monstro-Estado de Hobbes, misturando sua fala à de plantas e animais e transformando o romance numa fábula ácida.

Também surgem as vozes das volantes, os “macacos” que perseguem o bando. Nos diálogos entre o soldado Simão e o sargento Bezerra, Régis atinge um dos pontos mais altos de sua prosa. Simão, soldado subalterno, desvia, provoca e desmonta hierarquias enquanto o sargento tenta — e falha — impor autoridade.

Cada fala carrega crítica social, teologia popular, autoironia e uma visão profundamente cética do mundo. O humor é sutil e amargo: ri-se do absurdo enquanto emerge o desconforto diante da covardia institucional, do racismo internalizado e da resignação frente ao cangaço como força inevitável.

O estilo de Régis é excessivo de propósito. Frases longas, imagens acumuladas como o sol sobre a caatinga, mitologia grega misturada a sangue seco e humor carnavalesco. O excesso deixa de ser exibicionismo para se revelar parte essencial da experiência narrativa — o calor, a violência cíclica, o “nada de novo” que dá título à obra.

É justamente aí que reside a força perturbadora do romance. Régis não oferece catarse, não redime, não consola. O sertão surge como organismo vivo narrando a si mesmo em todas as escalas: do cósmico ao microscópico, do mito à bactéria.

No fim, resta o pó — um pó que já foi Maria Amazona, Candeeiro, Simão e Bezerra. O cangaço deixa de ser passado histórico para tornar-se matéria viva, em constante decomposição e reinvenção.

Nada de Novo não é para quem busca trama linear ou heróis convencionais. É para quem aceita encontrar, no meio do nada, um coro de vozes que se recusa a silenciar. Maria Amazona não é apenas personagem. É território. E quem entra nele dificilmente sai o mesmo.

O livro está em pré-venda no site da editora M.inimalismos. Durante esse período, quem adquirir um exemplar recebe outro para presentear.