“VIVER COM SENTIDO 2” MATERIALIZA A PONTE ENTRE DIREITO, PSICOLOGIA E A SAÚDE MENTAL QUE NOS FALTA
Há um equívoco gentil que atravessa as livrarias e plataformas digitais de todo o Brasil: a ideia de que viver com sentido é uma questão de afirmação matinal, de frases bonitas em letras cursivas ou de um “propósito” que se descobre como quem acha uma chave perdida embaixo do tapete. A perspectiva é gentil porque não machuca ninguém, mas é igualmente perigosa porque contribui para adiar o debate sobre a complexidade da vida contemporânea e seus impactos sobre a saúde mental.
É contra essa anemia de significado que nasce “Viver com Sentido 2: Abordagens Interdisciplinares de Direito e Psicologia”, organizado por François Silva Ramos, com lançamento nacional marcado para o dia 29 de maio, às 19h, no Tamareiras Hotel, em Uberaba-MG. Mais do que apresentar um livro, o evento propõe um gesto raro no Brasil contemporâneo: fazer o Direito e a Psicologia começarem a falar entre si e com outras ciências, com o objetivo de melhor compreender a humanidade e melhorar nossa qualidade de vida.
Há um diagnóstico silencioso circulando nos consultórios e nos tribunais. A linguagem jurídica separa o certo do errado, mas raramente alcança a textura do sofrimento que obstaculiza a efetivação do direito constitucional à saúde. A linguagem clínica alcança o sofrimento, mas muitas vezes hesita diante da pergunta “e agora, o que a justiça faz com isso?”. “Viver com Sentido 2” é filho dessa fratura. E também uma tentativa de sutura.
O primeiro volume, lançado em novembro de 2025, já circulava em grupos de estudo que tinham uma fome peculiar: profissionais que saíram da universidade com ferramentas afiadas, mas sem um mapa para os desertos éticos que encontrariam pela frente. O segundo volume chega com ambição maior. Não se trata de um “manual de boas práticas”, mas de uma caleidoscópio de vozes — mais de trinta autores — que recusam a hierarquia entre o saber técnico e a escuta humana.
A lista de autores é longa, e seria um erro tratá-la como mera ficha técnica. Cada nome ali carrega uma história de fronteira. François Silva Ramos, que assina a organização, vem costurando há anos uma ponte entre a filosofia do direito e a psicologia existencial. Mas, o time que coordena vai além. José Elias de Rezende Júnior, Clebia Barbosa dos Reis, Rossana Cussi Jerônimo, Nayara Beatriz Borges Ferreira, Roberta Toledo Campos — cada um desses nomes responde a uma pergunta específica: como o luto atravessa uma sentença? Como a escuta ativa pode antecipar um acordo? Onde o direito de família falha quando a psicologia não é chamada a tempo?
E ainda: Maria Antonia Borges, Renata das Graças Quirino dos Santos, Maria Marta Melo, William César de Oliveira, Ellen Miziara, Adriano Nicolau da Silva, Ana Laura Borges Ferreira do Nascimento, Euseli dos Santos, Orlando Vasconcelos Folador, Monica Cecilio Rodrigues, Alessandra Carvalho Abrahão Sallum, Leilane Virgínia Vieto Penariol, Marcelo Venturoso de Sousa, Sybell Cristina Silva de Souza Pontes, Claudete Inês Kronbauer, Wellington Cardoso Ramos, Antônio Carlos Reis Bráz, José Antônio Elias, Frediele Rodrigues de Moura, Liciane Mateus da Silva, Fernanda Cristina Conceição, Rafaela Silva Rufino, William César de Oliveira Júnior.
Não é um coletivo acidental. É uma constelação. Cada qual a seu modo, esses profissionais vêm percebendo que o Direito sem a Psicologia vira máquina de produzir decisões tecnicamente corretas e humanamente absurdas. E a Psicologia sem o Direito vira escuta flutuante sem chão institucional.
O primeiro mérito do livro é metodológico. Ele não justapõe artigos de Direito e artigos de Psicologia como quem põe sal e açúcar na mesma mesa. Há capítulos escritos a quatro mãos, há casos clínicos analisados sob dupla perspectiva, há abertura para o que o direito chamaria de “provas periciais” e a psicologia chamaria de “narrativas de sofrimento”.
O lançamento nacional no Tamareiras Hotel não foi escolhido por acaso. O espaço, conhecido por sua arquitetura clássica mistura aconchego e formalidade, compatíveis com a complexidade temática da obra que será apresentada ao Brasil. Às 19h, não haverá apenas coquetel e sessão de autógrafos, mas uma mesa em que os organizadores prometem algo incomum — uma conversa sem mediação didática, sem powerpoint, sem aquele tom de quem explica para quem não sabe.
“Queremos que as pessoas sintam o livro antes de lê-lo”, disse François Silva Ramos em conversa reservada. “Não no sentido místico. No sentido corpóreo. O sentido não é uma ideia. É uma posição que o corpo ocupa no mundo.”
Para quem é esse livro? A resposta mais honesta: para profissionais exaustos. Assistentes sociais que viram o sistema desmanchar sob seus pés. Advogados que ganharam causas e perderam o sono. Psicólogos que escutam tanto que esqueceram de escutar a si mesmos. Estudantes de direito que descobriram com horror que o “amor ao próximo” não consta da ementa. E também para aqueles que não atuam em nenhuma dessas áreas, mas acordaram uma manhã com a sensação de que viver não pode ser apenas resolver problemas até morrer.
O livro não promete respostas. Se compromete a estimular perguntas melhores e muita reflexão. E isso, numa época entregue à pressa das soluções típicas de um contexto imerso nas dinâmicas da globalização já é uma forma rara de coragem.

Ler “Viver com Sentido 2”, já disponível em pré-venda na Amazon e na UICLAP, é como participar de uma sessão de terapia bem sucedida: há um cansaço bom, uma reorganização das gavetas internas. A gente descobre, por exemplo, que o sentido não é um destino, mas uma direção — e que essa direção se alcança coletivamente.
O jornalismo literário aprendeu, com Truman Capote e Janet Malcolm, que a verdade raramente é nua. Ela se veste de contradições, de linguagens que não se comunicam, de silêncios entre uma disciplina e outra. “Viver com Sentido 2” é um desses raros objetos que ousa vestir a verdade com o tecido áspero e necessário da interdisciplinaridade.